Por mais que a ciência avance, os seres humanos ainda não conseguem regenerar membros perdidos. Mas, para o axolote — um tipo de salamandra bem peculiar — perder uma perna não é exatamente um problema. Pois, esses animais curiosos escondem um segredo poderoso: a capacidade de regenerar membros inteiros.
“É impressionante o que eles conseguem fazer”, afirma Joshua Currie, biólogo do Instituto de Pesquisa Lunenfeld-Tanenbaum, em Toronto, que estuda regeneração em salamandras desde 2011. Quando um axolote perde uma parte do corpo, ela simplesmente cresce de novo — do tamanho certo e na posição correta. Em poucas semanas, é impossível ver onde foi feita a amputação.
E não são apenas membros: eles podem reconstruir partes dos pulmões, ovários, da medula espinhal e até do cérebro.

Regeneração: do mito à biologia
A capacidade regenerativa dos axolotes é conhecida há mais de 100 anos, mas apenas recentemente os cientistas começaram a entender, em detalhes, como esse processo funciona. Tudo começa com a formação de um tipo especial de pele sobre o ferimento — o epitélio de cicatrização — que prepara o terreno para o crescimento de um amontoado celular chamado blastema. É desse tecido que surgirá o novo membro.
Com o sequenciamento recente do gigantesco genoma do axolote e novas técnicas de edição genética, pesquisadores estão cada vez mais próximos de revelar os mecanismos moleculares que tornam essa regeneração possível — e talvez aplicáveis na medicina humana.
“Nas últimas décadas, a ideia de regeneração em humanos passou de um ‘será?’ para um ‘quando?’”, diz David Gardiner, biólogo do desenvolvimento da Universidade da Califórnia, em Irvine. “Agora, todos assumem que é só questão de tempo.”
O passo a passo da regeneração
O processo começa rapidamente: o sangue coagula em minutos e, em poucas horas, células da pele começam a recobrir o ferimento. Em seguida, células de tecidos próximos migram até o local, formando o blastema — uma estrutura parecida com o broto embrionário do qual surgem os membros durante o desenvolvimento fetal.
A partir daí, esse “aglomerado mágico” se transforma nas diferentes estruturas do novo membro. Quando o processo termina, o membro regenerado é tão perfeito quanto o original.

Currie, em colaboração com a bióloga Elly Tanaka, utilizou um truque genético para marcar células com cores diferentes e observá-las em tempo real durante a regeneração. Ao amputar apenas a ponta de um dedo de axolote, ele pôde rastrear como as células migravam e se transformavam ao longo de semanas. O estudo, publicado em 2016, revelou que células da pele e do tecido ao redor dos ossos — chamadas fibroblastos e células periesqueléticas — eram as verdadeiras estrelas do processo.
Axolotes e o caminho para reconstruir membros humanos
Catherine McCusker, pesquisadora da Universidade de Massachusetts, publicou recentemente um protocolo experimental para induzir a regeneração de um novo braço em axolotes. Combinando três fatores essenciais — ferimento, sinal nervoso e posicionamento celular — ela conseguiu, com a ajuda de fatores de crescimento e ácido retinoico, fazer com que axolotes desenvolvessem membros extras a partir de pequenos cortes.
Embora os resultados ainda sejam inconsistentes (alguns animais criaram dois ou três braços do mesmo ponto), a pesquisa mostra que talvez não estejamos tão longe de replicar a regeneração em humanos — pelo menos em escala limitada, como para regenerar tecidos da pele ou da retina.
Regeneração humana: um potencial adormecido?
A verdade é que os seres humanos já possuem instrumentos celulares semelhantes aos dos axolotes — usamos muitos dos mesmos genes. Estudos paleontológicos sugerem que a regeneração pode ser um traço ancestral, perdido ao longo da evolução. Alguns fósseis de anfíbios de 300 milhões de anos mostram membros regenerados de forma imperfeita, indicando que nossos antepassados também tinham esse dom.
Hoje, humanos conseguem regenerar partes do fígado, músculos, pele e até pontas dos dedos — especialmente em crianças. Mas, para estruturas mais complexas, como braços e pernas, nosso corpo simplesmente não consegue organizar o “concerto celular” necessário. Em vez de regenerar, formamos crostas e cicatrizes.
McCusker acredita que ainda estamos longe de regenerar um membro completo, mas aplicações mais imediatas são promissoras — como criar enxertos de pele mais funcionais para vítimas de queimaduras ou regenerar retinas danificadas com ajuda de bioengenharia inspirada nos axolotes.
Um segredo ainda por revelar
Enquanto cientistas seguem desvendando os mistérios por trás da regeneração, perguntas permanecem: como o epitélio de cicatrização cria um ambiente propício? O que determina quais células entram no blastema e quais ficam de fora? Como o axolote “sabe” o tamanho exato do novo membro?
Por enquanto, essas respostas ainda estão escondidas atrás daquele sutil sorriso de salamandra — mas não por muito tempo. ■
