Viver até os 120 anos está se tornando uma possibilidade real

Deseja viver mais? Durante séculos, a busca por interromper o envelhecimento foi território de charlatões que recomendavam mercúrio, arsênico ou combinações de ervas e pílulas — muitas vezes com efeitos desastrosos. No entanto, após décadas de promessas frustradas, a ideia de um verdadeiro elixir da longevidade está ganhando força. Por trás desse movimento estão cientistas ambiciosos e curiosos, além de bilionários entusiasmados — e, claro, interessados. Cada vez mais, pessoas comuns também estão aderindo à ideia de que comportamentos adequados e medicamentos específicos poderiam acrescentar anos — ou até décadas — à expectativa de vida.

Chegar aos 100 anos atualmente não é impossível, mas ainda é algo raro. Estima-se que apenas cerca de 0.007% da população mundial tenha 100 anos ou mais. No Brasil, os centenários representam 0,018% da população. Já nos Estados Unidos, centenários representam cerca de 0,03% da população. Se as novas iniciativas para prolongar a vida atingirem seu potencial, viver até os 100 poderá se tornar algo comum — e alcançar os 120 anos, uma meta perfeitamente razoável.

Mais empolgante ainda: esses anos extras poderiam ser vividos com saúde. Até agora, os avanços na longevidade focaram em combater causas de morte como doenças infecciosas. O envelhecimento em si — com seus males associados, como a demência — ainda não foi efetivamente retardado. Mas desta vez, esse é exatamente o objetivo.

O foco está em manipular processos biológicos ligados ao envelhecimento que, quando controlados em animais de laboratório, parecem estender sua vida útil. Alguns métodos já são conhecidos, como a restrição severa de calorias dentro de uma dieta equilibrada. Levar esse estilo de vida restrito é um pensamento inviável para a maioria das pessoas; mas medicamentos que afetam os mesmos mecanismos biológicos podem trazer resultados semelhantes. Um exemplo é a metformina, aprovada para tratar diabetes tipo 2; outro é a rapamicina, usada como imunossupressor em transplantes.

Outra linha de pesquisa busca desenvolver medicamentos que eliminem células “senescentes” — aquelas que já não têm utilidade no organismo. Os mecanismos naturais para se livrar dessas células, assim como outros sistemas de reparo, enfraquecem com o tempo. Ajudá-los não é apenas uma questão de limpeza interna: essas células disfuncionais interferem negativamente nas vizinhas saudáveis. Drogas senolíticas, que miram essas células, trazem riscos evidentes: eliminar um tipo celular sem afetar outros é um desafio. Ainda assim, os benefícios potenciais são significativos.

Para os mais entusiastas, isso é só o começo. Pesquisadores acadêmicos e da iniciativa privada estão investigando como rejuvenescer células e tecidos por meio da alteração de marcadores “epigenéticos” nos cromossomos — instruções químicas que orientam as células sobre quais genes ativar. Esses marcadores se acumulam com a idade; revertê-los poderia fazer com que uma célula de um corpo de 65 anos funcionasse como a de um jovem de 20. Imitar a restrição calórica e eliminar células senescentes retardaria o envelhecimento. Os mais otimistas afirmam que a reprogramação epigenética poderia até mesmo interrompê-lo — ou revertê-lo.

Uma preocupação real envolve o cérebro humano. Retardar o envelhecimento do corpo não mudará o fato de que o cérebro tem uma capacidade limitada, moldada ao longo da evolução para uma vida mais curta. Isso é diferente da questão da demência, causada por doenças específicas. A sociedade terá que se adaptar ao envelhecimento natural do cérebro: centenários poderão, por exemplo, depender cada vez mais de assistentes digitais com IA para lembrar coisas que antes guardavam facilmente na memória.

Uma preocupação ainda maior é que muitas dessas abordagens ainda não foram formalmente testadas em humanos. Parte do problema está no fato de que agências reguladoras de medicamentos ainda não reconhecem o envelhecimento como uma condição tratável, o que dificulta a autorização de estudos clínicos. Esses testes, por sua natureza, exigem o acompanhamento de milhares de pessoas ao longo de muitos anos, o que encarece e complica o processo. Além disso, muitos dos compostos usados inicialmente estão fora de patente, despertando pouco interesse comercial. Mesmo assim, alguns estudos já estão em andamento. O projeto TAME (Targeting Aging with Metformin) acompanhará 3.000 norte-americanos entre 60 e 70 anos para verificar se o medicamento realmente prolonga a vida. Estudos como esse levarão tempo, mas são essenciais — e os governos devem incentivá-los.

Qualquer avanço que permita às pessoas viverem mais e com saúde, aproveitando mais intensamente o mundo ao seu redor, é algo para ser comemorado. Alguns se preocupam com o fato de que esses benefícios possam ficar restritos aos mais ricos — criando uma classe dominante de longevos que viveriam muito além da média da população. Mas tecnologias têm um histórico de se popularizar e baratear. É difícil imaginar um privilégio mais propenso a gerar revolta do que uma elite que monopolize tratamentos contra o envelhecimento para escapar da morte, o grande nivelador.

A possibilidade de vivermos muito mais tempo teria implicações vastas. A mais óbvia seria o prolongamento da vida profissional — como já ocorre com o aumento da expectativa de vida — e talvez mais ainda entre mulheres, que perderiam menos tempo de carreira devido à maternidade, reduzindo desigualdades no mercado de trabalho. Com o tempo, outras mudanças profundas poderiam surgir. Pessoas que vivem mais tendem a se preocupar mais com ameaças distantes, como o estado do planeta em 2100. A longevidade favorece o acúmulo de capital, o que historicamente contribuiu para o surgimento de uma classe média. E épocas em que o poder político estava nas mãos de jovens — como na Idade Média — tendem a ser mais violentas do que aquelas governadas por líderes mais experientes. As famílias abrangeriam ainda mais gerações e, provavelmente, redes maiores de ex-cônjuges, meio-irmãos e primos de diversos graus. Isso levaria à fragmentação ou à união familiar? Um mundo repleto de centenários diminuiria a influência dos jovens, criaria um culto à juventude — ou ambos?

Para sempre, se possível

Se o elixir da vida se tornar realidade, as pessoas certamente o buscarão. A seleção natural não se importa com a longevidade infinita: as características que se perpetuam são aquelas que ajudam o organismo durante seus anos férteis; traços que favorecem uma vida longa pós-reprodutiva precisam atuar através de filhos e netos. Ainda assim, o desejo profundo de continuar vivo é uma das forças mais fundamentais do ser humano. E hoje, esse desejo está encontrando caminhos novos — e fascinantes — para se realizar. ■